terça-feira, 12 de julho de 2011

Cineclube comemora 5 anos de sucesso

Por Juliana Portella



Na  noite do último sábado  – 02 de julho –  o cineclube Buraco do Getúlio comemorou cinco anos de sucesso. O Buraco – como carinhosamente é chamado ­– reúne cinéfilos desde o ano de 2006, quando suas exibições ainda eram realizadas mensalmente no bar do Ananias. Depois de serem contempladas com um dos editais Cine Mais Cultura – Projeto do Ministério da Cultura que disponibiliza equipamentos audiovisuais de projeção digital –,  as sessões do Buraco passaram a ser toda terça-feira, às 19h, no Espaço Cultural Sylvio Monteiro.
A programação dessa festa de aniversário contou com apresentação das bandas Cretina, spllash, Gente Estranha do Jardim e Charanga do Caneco, além de Dj’s e Vj’s entrelaçados pela vibe da música.
Nelson Ferreira Neto aproveitou o festejo para comemorar seu 32º aniversário junto com os amigos no Cineclube. Freqüentador do Buraco há 4 anos, o estudante de cenotécnica não perde a chance de encontrar as amizades e assistir um bom filme. “Conheci o Buraco através de outro cineclube, o Mate com Angu. Pra quem gosta desse clima underground e é apaixonado por cinema assim como eu, não há lugar melhor”, revela Ferreira Neto. O coordenador do projeto, Diego Bion, dedica esses cinco anos de muita agitação audiovisual a sua esposa Luana Pinheiro.  “Devo muito à minha mulher por me aturar durante todos esses anos que sou  cineclubista”, agradece Bion.
De seis anos de relacionamento, há cinco Luana divide com as atividades do Cineclube. Ela, que também faz parte da equipe contribuindo com muita dedicação, acompanhou todas as dificuldades e glória nesses cinco anos de trajetória. “Já brigamos muito por causa da rotina agitada dele com o Cineclube”, confessa Luana, que sempre acompanha as atividades junto com o filho do casal, o pequeno Ícaro. 
Tanto comprometimento e paixão têm como resultado o sucesso e muitos seguidores. Hoje o Cineclube é referência na Região da Baixada Fluminense e oferece filmes sempre com um tema diferenciado, além de intervenções que envolvem música, teatro e tudo que é arte alternativa.

Mercadinho undergroud
Além de doses generosas de rock alternativo, quem prestigiou o 5º aniversário do Cineclube Buraco do Getúlio pode perceber que ali era um ótimo lugar para compras. Entre bolsas, franzines, cordéis e roupas, destacou-se a grife Poeme-se, que é responsável pela produção de camisetas poéticas. 

Brinde Sugestivo
Durante o festejo,  quem comprava uma cervejinha ou qualquer outra bebida no  bar do Cineclube ganhava de brinde um preservativo.  De acordo com Milena Manfredini – integrante da equipe do cineclube­–, a distribuição é feita com intuito de conscientizar o uso da camisinha em prol do  combate as DST´s –   Doenças Sexualmente Transmissíveis­.

domingo, 3 de julho de 2011

Cultura com a corda toda

Por Juliana Portella





Na tarde de  hoje, 13 de julho,  o Espaço Cultural Sylvio Monteiro foi tomado  por um grande burburinho artístico.  A  abertura do  Festival  Cordel com a Corda Toda reuniu  um  público de peso para  celebrar  e discutir  Cultura Popular, tendo a Literatura de Cordel como referência.

Os  destaques desse primeiro momento da maratona que é esse festival,  foram as apresentações de esquetes  teatrais  de muitos dos 340 alunos da rede pública de ensino que, diariamente, frequentam as oficinas de Literatura Cordel nos  Pontinho de Cultura em Nova Iguaçu,  coordenadas  por Marcos Covask.  "Pensamos em resgatar a cultura popular através da linguagem do teatro. Com esses novos adventos tecnológicos, é preciso preparar uma  juventude para além do Orkut, do cibernético.  A  literatura de cordel é importante nesse sentido, resgata valores, trabalha literatura."  Exclama Covask.

O resultado positivo das oficinas realizadas com as crianças é  notório. Fazer arte para além da sala de aula estimula a prática da leitura e aprimora o desejo pelo ensino.  "O teatro  me ensinou  as diferenças entre o que verso, poema e  prosa. Meu comportamento mudou, até as minhas notas subiram na escola. Sou menos tímida e acho que descobri um talento "  Conta a pequena Tayná Pereira, de 13 anos, estudante do 6º ano da Escola Estadual Machado de Assis, localizada no bairro da Prata, em Nova Iguaçu.

De acordo com Priscila Seixas, gestora de projetos da Burburinho Cultural, as oficinas que tiveram início em março deste ano na escolas são realizadas 2 vezes na semana em horário complementar as aulas regulares.



Missão da Cultura 



O novo  Secretário de Cultura, Anderson   Batata,   participou da abertura do festival  e não economizou palavras em sua intervenção. Parabenizando os agitadores do "Cordel com a Corda Toda", Batata defendeu  a bandeira de que cultura também  é  feita para além da sala de aula. E no que depender dele, a Cultura será  destaque na Cidade daqui pra frente. 

São muitas as expectativas  nessa nova gestão. Percebe-se que fôlego é o que não lhe falta.  " É preciso fazer a cultura que se produz aqui, circular Nova Iguaçu afora.   A missão da secretaria é  valorizar o que é daqui e levar isso para todos os cantos da Cidade. "   Afirma o Secretário.

domingo, 15 de maio de 2011

Locadoras, um habitat em extinção.

Por Juliana Portella

Não há nada melhor que poder assistir àquele filminho no sofá de casa. Ir até uma tradicional vídeolocadora, ficar horas por aqueles corredores sortidos escolhendo qual filme levar. Olhando capas e lendo sinopse. As facilidades de acesso a filmes pela internet ou com o camelô da esquina ainda não substituíram a sensação de estar em uma locadora.


Porém, de alguns anos para cá, muitas locadoras estão fechando suas portas. Cada vez mais escassas , podem ser consideradas um hábitat em extinção. Os motivos são muitos. A facilidade de se baixar filmes pela internet, aumento de usuários de TV a cabo e concorrência com o comércio alternativo (camelô) são as principais causas.

A internet foi uma grande invenção. Essa nova tecnologia faz com que qualquer música ou vídeo esteja ao alcance de todos através da rede. Dá para contar nos dedos usuários que resistem ao copyleft.

Exceção a esse cenário que vem se apresentando é a Cavídeos, que há 14 anos procura ser muito mais que uma simples locadora. Localizada na cidade do Rio de Janeiro, no Humaitá, em Botafogo, além de disponibilizar vídeos para seus clientes, a locadora mostra seu diferencial ao organizar mostras, lançamentos de livros, filmes e tudo mais que possa atrair o público alvo. A videolocadora, que também é produtora e distribuidora cinematográfica, se destaca por ser um ponto de encontro de cinéfilos e amantes de arte.

Ser referência exige dedicação. “Sabemos que a diferenciação é o único meio de sobrevivência. Procuramos filmes que ninguém tem, nossos funcionários sabem muito sobre os filmes e sobre cinema de uma forma geral. Trabalhamos 24 horas e nunca fechamos nossa loja”, garante o cineasta e dono da locadora, Cavi Borges.

A locadora oferece curtas-metragens gratuitos, animações para adultos, filmes de surf, documentários raros e filmes importados, entre outras coisas diferenciadas. E é assim que a Cavídeos sobrevive à corda-bamba das locadoras.

Com um leque de estratégias que transformam a ida à locadora em uma experiência gratificante, não se espanta com a pirataria. Segundo Cavi, a pirataria é uma consequência natural dos preços abusivos praticados pelo mercado audiovisual. “Uma vez vieram me vender o DVD do filme Pixote por R$ 115. Poderia ter comprado cinco cópias e acabei comprando uma. No dia seguinte, vi o filme pirateado nos camelô por R$ 5. Como esperar que as pequenas locadoras sobrevivam com esses custos?”

As poucas locadoras de Nova Iguaçu que sobreviveram a essa nova era também têm suas estratégias. No Condomínio Vila Ângela, no bairro da Luz, existe uma “locadora-lanhouse-mercadinho”. Não necessariamente nessa ordem, segundo o técnico em edificações Felipe Souza, morador do condomínio. “A princípio era só uma locadora, agora a dona teve que fazer, além da locadora, um minimercado, lan house, mas a locadorinha ainda tá lá no cantinho“, diz Felipe Souza.

Seja por culpa da pirataria ou popularização da internet, o fato é que ter uma locadora não é mais um negócio lucrativo. No entanto, tem que haver luz no fim do túnel para essa realidade. As locadoras guardam a memória e arte do cinema que não se alcança com um clique

quarta-feira, 4 de maio de 2011

Falando Sério sobre a Baixada

Por Juliana Portella

O conhecido projeto entre estudantes normalistas da Cidade de Nova Iguaçu, o Fala Sério!, que é realizado toda quinta-feira no Sesc, sempre em dois horários, das 9h às 12h e das 14h às 17h, teve uma edição especial em comemoração ao aniversário da Baixada, celebrado dia 30 de abril. O que era pra ser uma exibição de filme acompanhada de debate foi um voo histórico com direito a debate de agitadores culturais e historiadores locais, sobre a contemporaneidade da região e suas potencialidades.
A estudante do curso normal no Instituto de Educação Rangel Pestana, Jéssica Teixeira, 19 anos, conta que o evento reúne muitos alunos desse segmento pela necessidade de horas de estágio, que são contadas através de atividades culturais como essa, mas que não é o seu caso. "Eu até já fechei minha carga horária e mesmo assim não perco uma edição do Fala Sério! Gosto muito dos filmes exibidos aqui. São filmes que sempre nos fazem pensar e depois ainda tem debate com algum profissional da área do tema abordado, onde podemos participar”, conta a futura professora, ansiosa para assistir aos filmes dessa edição especial.

Como de costume, antes da exibição dos curtas, a dupla de atores Elisabeth Pagu e Paixão Dias fizeram um esquete, desta vez contando um pouco da história da Baixada Fluminense e de Dom Adriano Hypólito, que foi bispo por muitos anos em Nova Iguaçu e um importante militante da luta pelos direitos humanos na região.

Em um segundo momento foram exibidos três filmes com enfoque histórico. O primeiro foi a animação “De Iguassu a Iguaçu”, produzido por alunos de uma oficina de animação do próprio Sesc. Em seguida foi a vez do “Um Voo Sobre a Baixada”, produzido pelo IPAHB (Instituto de Pesquisas Históricas e Análises Sociais da Baixada Fluminense), com imagens aéreas feitas pelo historiador Renato Kamp. Por fim, foi exibido um documentário da Diocese de Nova Iguaçu que contava sua trajetória através da história das igrejas da Região.

Para encerrar a maratona de filmes com chave de ouro, o último curta exibido foi o “Prazer, meu nome é Nova Iguaçu”, dirigido por Yasmin Thayná. Diferentemente dos filmes anteriores, que se baseavam numa viagem às riquezas históricas da região, incluindo quase sempre documentos antigos, ruínas e imagens religiosas, o filme da jovem cineasta mostrou uma Nova Iguaçu que poucos entendem como riqueza histórica. Com o objetivo de mostrar a cidade através de trabalhadores exercendo suas atividades, o filme foi gravado no Calçadão, onde funciona o shopping a céu aberto. As imagens capturadas no documentário reuniram personagens ilustres da cidade que fazem de seu cotidiano a história da região.

Yasmin Thayná, que é estudante de jornalismo, dividiu a mesa de debate com grandes nomess da História da Baixada, como o professor Guilherme Peres, do IPAHB, e o historiador Antonio Lacerda, do Centro de Formação de Líderes. Yasmin agitou a plateia de jovens estudantes iguaçuanos e mostrou que cultura em Nova Iguaçu vai além do Top Shopping.

A estudante Thaisa da Costa, 18, saiu do teatro animada com o que viu. " É legal ver alguém da minha idade e da minha cidade já envolvida em tantas coisas, com tantos objetivos de intervenção no mundo através da arte, da cultura."

Na próxima semana, o filme a ser exibido é "O Caminho das Nuvens" com Wagner Moura e direção de Vicente Amorim.

sábado, 30 de abril de 2011

Eu, cineasta ?

Por Juliana Portella

Estou tranbordando de entusiasmo com o novo curso de audiovisual que farei na Escola Livre de Cinema. Sempre admirei muito o trabalho da escola e como sou apaixonada por comunicação, resolvi participar do processo seletivo. Depois que a ELC passou a ser patrocinada pela Petrobrás e ter apoio  da UFF, todo mundo quer estudar lá. Inclusive eu que não sou  otária, né? Já que sou monitora de audivisual e jornal escolar no trabalho  com as  crianças, pensei: o curso perfeito é o de audiovisual para educadores. Fui aprovada.

Oras, se hoje existe o Youtube, blogs. facebook, fotologs etc,  porque não mergulhar nessa onda? Eu que já tenho um caso de amor com as palavras pretendo agora ter um caso com o audiovisual. As palavras não têm ciúmes e vão tão pouco se importar. Não preciso da ancine, nem tenho expectativas mercadológicas com cinema. A grande sacada de estudar sendo  educadora é porque dá pra multiplicar conhecimento. Agitar pensamentos. Criar possibilidades de intervenção da realidade. E isso não há dinheiro que compre.

Existe uma outra parada que é espetacular, mora em mim uma necessidade imensurável de devolver a credibilidade que depositaram em mim quando só tinha apenas  17 anos,  morava lá pros lados de Cabuçu, disseram que eu tinha nascido repórter. Olhá que loucura, mano. Eu, repórter?!  Já que eu tinha  os pais semi-analfabetos, tinha acabado de entrar para o Movimento Estudantil da minha Cidade,  uma vontade ímpar de mudar a realidade que me cercava e o miolo-mole  acreditei, né?! Foi quando virei  redatora do Minha Rua Tem História, depois colunista do Jovem Repórter. Hoje  repórter  do Cultura NI, correspondente do Viva Favela, editora do Planeta Paris, assessora de imprensa da @prefbelfordroxo, estudante de  Jornalismo na UFRRJ e uma escritora meia-boca, intrusona na área de webdocumentário que acredita que vai mudar o mundo através da educação. Preciso sentir o gostinho de dever  cumprido ao mostrar para meus alunos que o que tem dentro da casa deles, na comunidade e na escola pode virar um filme.





segunda-feira, 4 de abril de 2011

Mínimos Detalhes



Por Juliana Portella

Nos seus cinco anos de atividades, a Escola Livre de Cinema de Nova Iguaçu vem mudando a vida de jovens e crianças através do audiovisual. A Escola, que era mantida pela prefeitura desde o ano de 2006, passa a contar com um aliado de peso para dar continuidade a seus trabalhos. Através de recursos da Lei Estadual de Incentivo à Cultura (ICMS), a ELC ganha patrocínio da Petrobrás para dar continuidade ao sonho de investir na capacitação de crianças e jovens da periferia.
Palavra, corpo e território. É nessa trilogia que está focada a revolução no ensino audiovisual que propõe a Escola Livre de Cinema desde a sua formação, pelo cineasta, escritor e diretor Marcus Vinicius Faustini. A cada ano o ensino é baseado em uma metodologia. Em 2009, as produções basearam-se nos contos de Câmara Cascudo. Em 2010, os alunos tiveram o desafio de produzir um vídeo autorretrato, com apenas um minuto, sem poder mostrar o próprio rosto. Toda essa didática compõe a cena estética da escola . Este ano a metodologia é baseada na ficção. Sendo o cinema um retrato da realidade do mundo, com esse tema como principal, mundos inventados estão por vir.
Brincando de cinema, divertindo-se com a descoberta de um mundo faz de conta, cada menino e menina das turmas A ou B recebe atividades muito bem planejadas e com objetivos pré-estabelecidos. Na ELC, ninguém é detentor do saber e nenhum aluno receptáculo vazio. As crianças trazem experiências do seu território e através da troca constroem conhecimento. Não é à toa que o diretor metodológico da escola, Anderson Barnabé, se preocupa com os minímos detalhes desse processo de formação de conhecimento. "Nós monitores/mediadores passamos periodicamente por uma capacitação. Tudo que faz parte do planejamento é testado conosco", garante a mediadora Josy Antunes, que também é jovem repórter.
Todo esse cuidado faz parte do sistema de ensino da escola, que conta com o apoio de estudantes de cinema da UFF (Universidade Federal Fluminense), que contrubuem na criação de atividades lúdicas. Jogos cênicos, artes plásticas, literatura e exercícios corporais resultam no desenvolvimento intelectual e cultural de cada aluno. Para cada turma, existem dois mediadores para aplicar as atividades e trocar experiências. Um é aluno da UFF, e o outro é ex-aluno da ELC.
Josy Antunes faz parte dessa equipe de mediadores. Vale a pena lembrar que Josy, além de formação superior em Cinema pela Universidade Estácio de Sá e ex-aluna da ELC, tem formação em magistério. "Quando concluí o magistério eu fugi. Não queria dar aula, achava responsabilidade demais assumir uma turma de alunos. Hoje estou lecionando na Escola Livre de Cinema. Estou atuando nas minhas duas áreas de formação e estou muito feliz", conta Josy.


Visibilidade
Grandes ideias resultam em visibilidade. E a Escola Livre de Cinema é uma verdadeira fábrica de ideias e tem sido alvo de muito aplausos e holofotes. Quem diria que na Baixada Fluminense haveria uma escola de cinema gratuita e de qualidade? Muitos que não acreditam vem conferir. Na última semana, a equipe do Programa Hoje em Dia, da Rede Record, visitou a Escola.
Com fôlego renovado, ideias e câmeras nas mãos da garotada essa escola ainda vai ser modelo de ensino para o mundo, e Nova Iguaçu grande polo de produção audiovisual.
Quem quiser fazer parte do quadro de alunos terá que passar por um processo seletivo que tem sua primeira etapa no próximo sábado, dia 09 de abril. As inscrições estão abertas. Dublagem, Blognovela, Videoclipe para You Tube e Audiovisual para Educadores. São os cursos oferecidos para este ano. Mais informações pelo tel: 2886-3889 /2886-3502. A escola fica localizada na Rua Santos Filho, nº 87 - Miguel Couto

quinta-feira, 17 de março de 2011

Memória Inventada

Sobre Sucatas

Isto porque a gente foi criado em lugar onde não tinha brinquedo fabricado. Isto porque a gente havia que fabricar os nossos brinquedos: eram boizinhos de osso, bolas de meia, automóveis de lata. Também a gente fazia de conta que sapo é boi de cela e viajava de sapo. Outra era ouvir nas conchas as origens do mundo. Estranhei muito quando, mais tarde, precisei de morar na cidade. Na cidade, um dia, contei para minha mãe que vira na Praça um homem montado no cavalo de pedra a mostrar uma faca comprida para o alto. Minha mãe corrigiu que não era uma faca, era uma espada. E que o homem era um herói da nossa história. Claro que eu não tinha educação da cidade para saber que herói era um homem sentado num cavalo de pedra. Eles eram pessoas antigas da história que algum dia defenderam a Pátria. Para mim aqueles homens em cima da pedra eram sucata. Seriam sucata da história. Porque eu achava que uma vez no vento esses homens seriam como trastes, como qualquer pedaço de camisa nos ventos. O mundo era um pedaço complicado para o menino que viera da roça. Não vi nenhuma coisa mais bonita na cidade do que um passarinho. Vi que tudo que o homem fabrica vira sucata: bicicleta, avião, automóvel. Só o que não vira sucata é ave, árvore, rã, pedra. Até nave espacial vira sucata. Agora eu penso uma garça branca de brejo ser mais linda que uma nave espacial. Peço desculpas por cometer essa verdade.

Por Manoel de Barros